quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Consciência Quântica

            A partir de Delgalarrondo (2008) é possível compreender que há diversas concepções sobre a consciência, o termo pode se referir a: um estado de ativação cerebral que oscila em níveis (sono – vigília); soma de experiências conscientes ou a capacidade de perceber e interagir com a realidade conscientemente. Além destas concepções, temos a visão espiritual e religiosa de que a consciência está presente em um espírito ou alma. Apresentaremos agora a visão defendida pelo professor Stuart Hameroff da Universidade do Arizona, que já foi divulgada anteriormente pelo cientista Robert Lanza. É necessário esclarecer que esta nova visão parte da concepção da consciência como uma soma de experiências conscientes.
            Dentro desta nova visão a consciência não está localizada no cérebro, que, por sua vez, pode ser comparado a um “computador quântico”. O cérebro seria o receptor desta consciência, na qual se encontra o conjunto de informações conscientes que o indivíduo adquiriu ao longo de sua existência. Dentro da visão quântica existem unidades armazenadoras de informações em todo o universo e não só no cérebro.   A partir desta constatação é possível conceber a conexão entre estas unidades armazenadoras, dentro e fora do cérebro, e a consciência, contendo as informações armazenadas, estaria também conectada ao universo como um todo. O vídeo a seguir explica essa visão:


            A concepção de uma consciência não local foi compartilhada pelo pesquisador Jacobo Grinberg da Universidade do México, que realizou um experimento no qual duas pessoas se comunicaram sem nenhuma troca de sinais. Neste experimento os resultados foram avaliados pelo exame de EEG e as pessoas ficaram separadas em duas “Gaiolas de Faraday” diferentes, cujas paredes impediam a passagem de ondas eletromagnéticas. Esta pesquisa foi repetida por Peter Fenwick em 1998 e por Leona Standish em 2004, obtendo resultados semelhantes. Veja mais detalhes no vídeo "Telepatia e Ciência: As Evidências - O Ativista Quântico - Amit Goswami" disponível no link: http://www.youtube.com/watch?v=myvdp_qAyp0
          A ideia de uma consciência não local aproxima pesquisas científicas de uma concepção que já existia há muito tempo nos discursos espirituais de algumas religiões, pois indica a existência de uma dimensão extracorpórea. Além disso, dentro desta visão existiria uma alma eterna, que seria constituída pelo mesmo “tecido” do universo; corroborando com as crenças hindus e budistas de que somos parte de uma consciência suprema e infinita, que, por sua vez, constitui o universo. O tema ainda está sendo estudado e os debates continuarão.

Acesse mais informações no link a seguir:
http://www.gamevicio.com/i/noticias/179/179404-cientista-afirma-que-a-teoria-quantica-prova-que-a-consciencia-vai-para-outro-universo-pos-a-morte/

Referências Bibliográficas
Delgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Editora: ArteMed. 

Consciência, Ciência e Espiritualidade


O termo Experiência de Quase-Morte surgiu a partir de um livro publicado por Raymond Moody, que descreveu experiências de pessoas que quase morreram. Estas experiências incluem a visão de um túnel e de uma luz forte, a sensação de estar em uma outra dimensão, a sensação de estar fora do corpo e de poder vê-lo de cima, um sentimento de paz, a percepção de seres não-físicos, a experiência de rever a sua vida, entre outros fenômenos. O estudo deste tema levanta polêmicas, dentre as quais destacaria a questão da consciência e da espiritualidade.
             O conceito de consciência já é por si só bastante controverso. Delgalarrondo (2008) informa que o termo “consciência” pode ser usado com diversos significados: referindo-se a um estado de ativação cerebral que oscila em níveis (sono ou vigília); referindo-se a soma das experiências conscientes ou a capacidade subjetiva de perceber e interagir com a realidade. Além disso, a consciência é considerada uma função da mente e desde a época de Descartes há um debate sobre a relação entre a mente e o corpo. Partindo de concepções religiosas, a mente e a consciência podem estar associadas a uma alma, mas para a neurociência ambas estão localizadas no cérebro, dependendo do seu funcionamento.
            A ciência busca entender se as experiências de quase-morte resultam de processos cerebrais alterados, que causariam estados alterados de consciência, produzindo os fenômenos relatados. Porém, se estas experiências ocorrerem em períodos de inconsciência (diminuição ou ausência de ativação cerebral) diante de diagnósticos de morte clínica, pode-se questionar se a consciência e os processos mentais realmente dependem do funcionamento cerebral. E é neste ponto que a ciência encontra a espiritualidade: existiria alma? Vida após a morte?
            A ciência nasceu buscando novas explicações, além das fornecidas pela religião. A religião acabou se tornando um objeto de estudo da própria ciência e as experiências religiosas ou espirituais também são investigadas. É importante destacar que religião e espiritualidade são diferentes, neste blog compreendemos que a religião é uma forma de vivenciar a espiritualidade dentro de determinados contextos socioculturais. Mas a espiritualidade não está limitada a uma religião específica e pode ser compreendida como um contato com pensamentos e sentimentos superiores ou transcendentes (Elias e Giglio, 2002). 
            Koenig (2001, como citado em Peres et. al., 2007)  defende uma visão semelhante à nossa quando informa que há uma diferença entre espiritualidade e religião, sendo a última conceituada como "[...] um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos projetados para auxiliar a proximidade do indivíduo com o sagrado e/ou transcendente", enquanto a espiritualidade seria "[...] uma busca pessoal de respostas sobre o significado da vida e o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente" (p.137). 
         Quando a ciência se encontra com a espiritualidade, os pesquisadores buscam explicações que ultrapassem as fronteiras religiosas. Ou seja, não se busca a confirmação das crenças de determinadas religiões, mas considera-se o conteúdo espiritual do fenômeno a ser estudado, ainda que as hipóteses explicativas propostas pela ciência possam divergir  dos discursos espirituais. 
             No estudo das EQMs, produzido neste blog, a espiritualidade aparece de duas formas. Nos relatos sobre as experiências, percebe-se, em sua maioria, a espiritualidade como uma busca pela transcendência, produzindo efeitos na subjetividade de quem as vivenciou (ver o marcador ao lado sobre Religião e EQM / Espiritualidade e Saúde). Neste sentido, a espiritualidade se encaixa na conceituação proposta anteriormente. Por outro lado, a espiritualidade aparece em conflito com a ciência na discussão sobre a localização da consciência: alguns pesquisadores buscam comprovar que a mesma está localizada no cérebro (ver marcador ao lado sobre  O Cérebro nas EQMs), enquanto outros aceitam e investigam a possibilidade da não-localidade (ver publicação sobre Consciência Quântica), que converge com o discurso espiritual.
                  Consideramos que a espiritualidade entraria como complemento na tentativa de preencher lacunas na ciência, mas que esta pode encontrar outras explicações. Porém, ainda que os cientistas consigam confirmar o pressuposto de que a consciência é produto do cérebro, o conteúdo espiritual, como uma busca pela transcendência, permanecerá presente nas vivências destas experiências. Portanto, nosso objetivo é mostrar que apesar das divergências entre os diversos pontos de vista, tanto a ciência quanto a espiritualidade estão presentes no estudo deste tema e um diálogo entre estas duas dimensões enriquece a compreensão deste complexo fenômeno. 
            
Você pode buscar mais informações sobre o tema acessando os marcadores ao lado, “O que você quer saber?”, e se quiser saber quem são as autoras deste blog, acesse “Quem Somos”. 

Referências Bibliográficas:

PERES, J.F.P. et al. (2007). Espiritualidade, religiosidade e psicoterapia. Revista de Psicologia. Clínica. v.34, supl 1, p.136-145. Disponível em: <http://www.julioperes.com.br/upload/files/52ee3fd717.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2014

Mais referências em "Indicações de Vídeos e Leituras"

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

de Platão até Jung

               Experiências místicas, como as de quase-morte sempre existiram ao longo do tempo nas diversas sociedades humanas. Platão, por exemplo, através do mito de Er, conta a história de um homem que após ser declarado morto, retoma a consciência e relata sua visita a um lugar divino: ao chegar no local aonde os juízes pronunciam as sentenças, Er descobriu que fora escolhido para ser o mensageiro e informar aos homens o que existe do outro lado (Platão, 2005, como citado em Roscio, n.d). Além disso, curiosamente, alguns dos fenômenos relatados nas EQMs (percepção de uma luz, acessar outras dimensões ou elevar-se sobre o próprio corpo) também estão presentes em relatos muito antigos sobre experiências de yoga ou meditação dentro da cultura oriental (Singh Ji Maharaj, n.d).
             Porém para a ciência moderna no ocidente, o tema é recente; faz apenas 30 anos que Raymond Moody publicou sobre (Fenwick, 2013). Em 1990, o desejo de desvendar e comunicar o que acontece depois da morte, presente no mito de Platão reaparece em um filme americano, “Linha Mortal”, no qual estudantes de medicina decidem induzir em si mesmos experiências de quase-morte para revelar o que ocorre. Desde que o tema começou a ser investigado na ciência moderna, há uma tendência de estudá-lo a partir de uma perspectiva ocidental, buscando padronizações e estruturações (ver os marcadores "O que é" / "Como este tema é pesquisado?"). No entanto, as EQMs são marcadas por aspectos culturais e as pesquisas precisam considerar e aprofundar o conhecimento acerca do contexto sócio-histórico deste tema. 
       O caso de um famoso psicólogo de base analítica, Carl Jung, revela como elementos culturais diversos podem aparecer em uma experiência de quase-morte e como esta impacta profundamente as pessoas, gerando reflexões sobre as questões existenciais da humanidade e caracterizando-se como um fenômeno complexo:

“Considerando-se em geral, minha doença foi uma experiência muito válida; ela me deu  a  oportunidade  inestimável  de  olhar  por  trás  do véu.  A  única  dificuldade  é  livrar-se  do  corpo,  ficar  nu  e  vazio  do mundo  e  da  vontade  do  eu.  Quando  se  pode  desistir  da  louca vontade de viver e quando se cai aparentemente num nevoeiro sem fundo, então começa a vida verdadeiramente real com tudo o que foi intencionado e nunca alcançado. É algo inefavelmente grandioso. Eu estava  livre,  completamente  livre  e  inteiro,  como  nunca  me  havia sentido  antes.  Eu me  sentia  a  15.000  quilômetros  da  terra  e  a  via como  imenso  globo  brilhando  numa  luz  azul,  indizivelmente  bela.” (Jung: Carta 01.02.1945, como citado em Roscio, n.d)

“Teme-se usar a expressão  “eterno”;  não  posso,  entretanto, descrever  o  que  vivi  senão  como  a    beatitude  de  um  estado intemporal,  no  qual  presente,  passado  e  futuro  são  um  só.  Tudo  o que ocorre no  tempo concentrava-se numa  totalidade objetiva. Nada estava  cindido  no  tempo  e  nem  podia  ser  medido  por  conceitos temporais.  [...] Um  todo  indescritível no qual estamos mergulhados e que, no  entanto,  podemos  perceber  com  plena  objetividade.”  (Jung, 2002:258, como citado em Roscio, n.d)

"À direita da entrada, um hindu negro sentava em silêncio em postura de lótus sobre um banco de pedra. Ele usava um manto branco, e eu sabia que ele esperava por mim. Dois passos me levaram a essa antecâmara, e, no interior, à esquerda, estava o portão do templo. Inúmeros nichos pequenos, cada um com uma concavidade do tamanho de um pires preenchido com óleo de coco e pequenas mechas ardentes, cercavam a porta com uma grinalda de chamas brilhantes. Eu tinha visto isso uma vez, na verdade, quando visitei o Templo do Dente Santo em Kandy, no Ceilão (Sri Lanka). [...] Lá eu finalmente iria entender – e isso também era uma certeza – o sentido (nexo) histórico a que eu ou minha vida estávamos conectados"(disponível em Pereira, 2012)

Consideramos que ainda serão necessárias muitas pesquisas para compreender verdadeiramente este tema, que sempre gerou reflexões na humanidade e até hoje permanece uma interrogação. Você pode conhecer mais sobre as hipóteses e os conhecimentos construídos sobre as EQMs, bem como outros relatos, visitando os nossos marcadores ao lado, lendo nossas postagens e acessando as indicações de vídeos e leituras. 

Referências Bibliográficas

Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-7. 

Links

Curiosidades

O tema "Experiência de Quase-Morte" é de fato complexo, há muitas hipóteses e muitos mistérios. Quando se trata da morte alguns podem defender que somos apenas aglomerados de átomos - nosso corpo e nossa personalidade deixarão de existir, nossos genes poderão continuar existindo em outras pessoas e nossos átomos irão se espalhar por aí - nada mais. Outros podem dizer que somos almas, espíritos, partes integrantes de Deus. Mas a verdade é que ninguém sabe de fato o que acontece depois da morte e, como diria Shakespeare, Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe vossa vã filosofia”. Veja, por exemplo, algumas curiosidades bizarras, porém possíveis, sobre EQMs:

  •             Uma EQM pode alterar o campo eletromagnético, fazendo com que as pessoas sejam capazes de afetar ou mover utensílios elétricos; algumas pessoas não podem usar relógios, porque eles não funcionam. (Melvin Morse)
  •            Há também indicações de aumento da sensibilidade à luz, som e até à fatores meteorológicos (Atwater)
  •             Kenneth Ring diz ter encontrado relações entre a EQM e o despertar da kundalini, termo em sânscrito (hindu) que se refere a uma energia sagrada.
  •              EQMs podem produzir algumas alterações de personalidade ou até de memória. Algumas pessoas passam a acreditar que são alienígenas.
  •            O lobo temporal pode ser a área mística do cérebro. Wilder Penfield estimulou o lobo temporal do cérebro de alguns pacientes e isto gerou neles a sensação de estarem deixando os seus corpos.

De onde tiramos essas informações curiosas?
Borges, Walter da Rosa. EQM – Uma questão polêmica. Disponível em: <http://www.parapsicologia.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=30:eqm--uma-questao-polemica&catid=12:brasil-pernambuco>. Acesso em 2013

Nahm, M. (2011). Reflexões sobre o contexto de experiências de quase-morte.   Disponivel em: <http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/X_autores/XAVIER_Ademir_tit_reflexoes_sobre_o_contexto_de_experiencias_de_quasemorte_artigo_Michael_Nahm.htm >. Acessado em nov./2013.

EQMs na Mídia


  • O médico Eben Alexander afirma ter estado consciente e viajado para uma outra dimensão do universo (fonte: Revista ISTOÉ 2242, matéria de Mônica Tarantino).
tbcparoquia.blogspot.com

Este médico é o autor do livro "Uma Prova do Céu". Neurocientista convicto, ele mudou de opinião ao passar por uma experiência de quase-morte enquanto esteve em coma por sete dias - agora deseja compartilhar suas novas descobertas. Confira:
http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capitulo/30760009.pdf

http://www.universoholisticodoser.com/uploads/1/3/9/1/13914594/uma_prova_do_ceu_-_alexander_iii__dr._eben.pdf


  • O advogado Solon Michalski passou por duas experiências de quase-morte e afirmou ter visto os médicos tentando reanimá-lo; ele esteve em coma por dez dias após um acidente de carro. (fonte: Revista ISTOÉ 2242, matéria de Mônica Tarantino, foto por Daniela Dacorso).



Relato de uma Criança

Disponível em:

http://pensaralem.wordpress.com/2013/08/29/caso-fascinante-de-eqm-com-efc-em-crianca-caso-john/


Crianças também relatam passar por experiências fora-do-corpo.; tais relatos geralmente são encarados como provindos da imaginação infantil.

Caso John

Referências
Parnia, Sam. O que acontece quando morremos, Larousse, São Paulo, 2008

"Parnia recebeu uma carta de uma senhora, avó do garoto John, onde este, ao sofrer uma parada cardíaca, com cerca de 3 anos de idade, relatou ver uma senhora após a própria morte, além disso, alegou passar por uma experiência fora-do-corpo, chegando a reconhecer, posteriormente, uma máquina de circuito de passagem, que supostamente foi observada durante a EFC." 


“[Depois que ele foi liberado do hospital] um dia, durante uma brincadeira, ele disse: ‘Vovó, quando eu morri, eu vi uma senhora’. Ele ainda não tinha três anos de idade. Perguntei à minha filha se alguém havia mencionado alguma coisa a John sobre o processo da morte, e ela disse: ‘Não, de maneira alguma’. Mas durante os meses seguintes, ele continuou a falar de sua experiência. [...]
Ele disse: ‘Quando eu estava no carro do doutor, o cinto ficou frouxo e eu comecei e olhar de cima, lá do alto’. Ele também disse: ‘Quando você morre, não é o fim… uma senhora veio e pegou na minha mão… tinha também um monte de outras pessoas, que estavam pegando roupas novas, mas eu não, porque eu não estava morto de verdade. Eu ia voltar’”.
John realizou dois desenhos. O segundo refere-se quando ele ficou mais velho, confira:
(a) Ao ser questionado sobre o balão, o menino respondeu que “quando você morre, vê uma luz brilhante... e ela está ligada numa corda”.
(a) Ao ser questionado sobre o balão, o menino respondeu que “quando você morre, vê uma luz brilhante… e ela está ligada numa corda”.
(b) Segundo desenho feito pelo menino - retratando claramente uma EFC.
(b) Segundo desenho feito pelo menino – retratando claramente uma EFC.

Outro desenho de uma Criança sobre EQM - disponível em  eradoespirito.blogspot.com



Mais Relatos

  • Você pode encontrar vários relatos de EQMs no site da Fundação de Pesquisa sobre a Experiência de Quase-Morte. Além dos relatos há entrevistas, que fornecem uma visão aprimorada da experiência relatada. Acesse:
http://www.nderf.org/Portuguese/index.htm

Você também pode conhecer um pouco sobre Experiências Negativas acessando -http://sobrenatural.org/relato/detalhar/10098/eqm___imagens_que_assustam/

"Um homem narrou que enquanto recuperava-se de uma cirurgia cardíaca, em uma UTI hospitalar, viu sair, dos cantos das paredes do teto do quarto, imagens assustadorea, de forma física indefinida, que voavam na sua direção como a querer sugar sua energia. Eram, segundo ele, vampiros na sua forma física e cor.(escuros e com dentes enormes) Ele, entubado, não conseguia gritar ou pedir socorro. Foi a aceleração do seu batimento cardíaco que chamou a atenção de médicos que o fizeram dormir através de uma injeção de calmante."
"Um dos relatos mais impressionantes ouvi foi de uma mulher que tentou o suicídio e, num estágio avançado do que seria o seu encaminhamento para a morte, viu-se rodeada por dezenas de pessoas as quais sabia que também haviam cometido o suicídio. Tais espiritos, sofridos, relatavam o quanto era doloroso o seu processo de morte e o arrependimento pela decisão. Diziam ainda que ao contrário do que pensavam o suicídio não traria paz, mas apenas amplificaria seu sofrimento físico e também espiritual. Tal mulher pode retornar, claro, posto que falou comigo, e passou a fazer um amplo trabalho social para acolher potenciais vítimas de suicídio."

Entrevista com Carolina

Sabe-se que alguns dos fenômenos vivenciados durante uma experiência de quase-morte podem ocorrer diante de um perigo apenas aparente e subjetivo de morte (veja o marcador "como este tema é pesquisado"). Carolina, por exemplo, viveu a experiência de "se ver de cima" após um desmaio quando ainda era criança e se lembra da experiência: 


Carolina: Foi assim, eu tava com anemia muito forte, tinha jantado, mas quando acordei pra ir pra escola, não tinha tomado café da manhã. Cheguei na escola e fui indo pra sala, tem que subir uma escada, subindo a escada fiz um esforço muito grande e fiquei ofegante, me sentindo mal. Quando cheguei na sala, coloquei minhas coisas na cadeira, aí eu desabei. Quando olhei pra cima, vi o pessoal correndo em minha direção gritando: “CAROL!”, aí eu fiquei com medo e fui me afastando, aí depois falaram: “chama a professora, chama a professora!”. E eu: “como assim, por quê?” e eu não conseguia ver meu corpo no chão ainda, quando a professora chegou e me levantou, aí eu me vi, no colo da professora. Aí ela me levou pra fora da sala e chegou a professora da minha turma (a professora que tinha me pego no colo primeiro era a professora da terceira série), aí a professora me pegou no colo até a beira da escada, quando o zelador chegou e me levou pra baixo e me botou num sofá que tinha na coordenação. Eu fiquei lá por uma hora mais ou menos, a coordenadora: “meu deus, o que vou fazer, liga pra mãe dela!”, ligaram pra minha mãe, ela tava no trabalho, quando ela recebeu a ligação, saiu do trabalho e foi na hora. E eu fiquei lá sentada na minha frente, me olhando deitada no sofá, eu tava com medo e não queria sair de perto do meu corpo, eu não sabia, eu só queria ficar ali. Aí de repente eu fui me aproximando, me aproximando, me aproximando e acordei.
Beatriz: Mas tu consegues distinguir o que é que te disseram que aconteceu e o que foi que você viu?
Carolina: Assim, eu contei pra outras pessoas o que aconteceu e tal, mas eles me disseram que foi projeção da minha mente do que me contaram que aconteceu, mas eu já tinha visto isso e já tinha certeza do que tinha acontecido antes de me contarem. Que disseram que eu desmaiei e tudo, e eu já sabia, foi como se estivessem me confirmando o que eu tinha visto. “Ah, porque você sonhou com o que aconteceu e quando lhe contaram você achou que foi isso mesmo”. Eu acho que não tenha sido, eu acho que eu realmente tava fora do meu
corpo e que eu me vi. Sabe? Agora eu não sei se isso é verdade mesmo ou se tem uma explicação mais lógica do que espiritual.
Beatriz: As coisas que você disse que viu foram confirmadas por outras pessoas?
Carolina: Sim, a professora falou tudo: que quando eu cheguei na sala os meninos ficaram assustados, que vieram pra cima de mim e chamaram a professora, e quem me levou pra forafoi a professora da terceira série, e que depois ela chegou e me pegou toda mola como se eu estivesse morta. Só que ela não desceu comigo, quem me levou pra baixo foi o zelador, e eu lembro de tudo isso, lembro até do zelador.
Beatriz: Foi a única vez que aconteceu algo assim?
Carolina: Foi. Porque a anemia tava MUITO forte, quando a anemia tava no ponto máximo, eu não podia fazer um esforço que passava mal.
Beatriz: Tu imaginas que deve ser assim quando a pessoa morre?
Carolina: Eu acho que quando a pessoa morre, porque eu não morri, eu só desmaiei, ela deve sair do corpo, ela deve ver as pessoas, mas como ela morreu, ela deve ver alguma coisa que leve ela pra outro canto, porque ela não fica aqui. Uma luz, um caminho, qualquer coisa que leve ela pra uma outra dimensão.
Beatriz: E você viu algo além? 
Carolina: Eu não vi, eu só via as pessoas histéricas, e eu tava com medo porque não sabia o que tava acontecendo. E eu não me via no mesmo patamar que eu tava, eu me via mais em cima.
Beatriz: Quais são as sensações? Tu relatas ter se visto de cima, eu não sei se tu terias sentido outra coisa na tua audição, no teu tato, no teu cheiro, ou só foi ter se visto de cima?Carolina: eu não lembro direito porque faz muito tempo, eu me vi de cima, quando eu tava na sala ainda, quando os meninos estavam me vendo. Eu estava perto das cadeiras e não estava vendo meu corpo, ele tava caído no chão e eu só o vi quando a professora levantou. Aí eu comecei a subir, aí eu fiquei com medo e parei.



Vídeos












+ EQM - Por um fio (Relatos e explicações científicas e religiosas)  http://www.youtube.com/watch?v=rCmxHOCxhuo 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Relato da Capa deste Blog

Disponível em:

http://mdemulher.abril.com.br/bem-estar/reportagem/auto-ajuda/minha-alma-saiu-meu-corpo-voltou-484955.shtml

Publicado em 16/07/2009
Marcela Delphino


Destaque da Matéria
O meu corpo estava sendo operado e minha alma assistia a tudo, do alto
Ilustração: Estúdio 3
"A sensação era diferente de tudo o que eu já havia sentido. Eu flutuava, perto do teto. Percebi, então, que lá embaixo havia pessoas que eu conhecia. Num olhar mais atento, reconheci minha mãe, uma amiga e duas primas. Estranho... Elas choravam muito. Senti o clima tenso, pesado. "Será que alguém da nossa família morreu?", pensei.
Eu não ouvia o que elas falavam. Tudo tão confuso... E nesse momento um anjo apareceu diante de mim. Ele emitia uma luz forte, amarela e laranja. Foi aí que percebi o que acontecia. Como num filminho de segundos, me lembrei de que tinha sofrido um acidente de carro e que o resgate tinha me levado para um hospital. Lembrei também que os médicos falaram em operação urgente. Meu Deus, era por mim que choravam! Eu estava morrendo...

O caminhão passou o sinal vermelho
Eu voltava de um show do Jairzinho com minha amiga Camila. No cruzamento de uma grande avenida de São Paulo, um caminhão passou no sinal vermelho e bateu com tudo na lateral do meu carro. Fomos arrastadas por uns 10 metros até batermos num poste.
Na hora, não senti dor. Nem me dei conta da gravidade do acidente. Lembro de ouvir os médicos do resgate dizerem que eu havia quebrado o pescoço. No hospital, eu seria operada imediatamente.

Meu espírito voltou ao corpo
Enquanto via todo mundo ali aos prantos, caiu a minha ficha do que acontecia... Era eu quem corria risco de vida! O meu corpo estava sendo operado na sala ao lado e minha alma assistia a tudo, do alto. Mas, quando tomei consciência disso, foi como se o meu espírito voltasse ao meu corpo. Tudo se apagou e não senti mais nada.
Acordei na UTI, ainda sem conseguir falar. Estava meio zonza, estranhando todos aqueles aparelhos. Mas, por dentro, eu sentia uma energia muito boa.
Minha mãe foi a primeira a me visitar. Contei que eu a vi chorando por mim com minhas amigas. Falei do anjo sobrevoando o hospital enquanto eu estava sedada. Não fiquei frente à frente com esse anjo, mas sabia que ele estava lá, no céu, zelando por mim. Não sei se é por influência da minha criação católica, mas tudo me pareceu bem real.

Descobri que tive uma EQM
Além de ter quebrado o pescoço, tive nove fraturas no quadril. Recuperada, contei a amigos sobre as coisas que vi. Só aí, vim saber que isso acontecia com algumas pessoas. Essa sensação de sair do corpo, de ter morrido e voltado à vida, é chamada de "experiência de quase-morte", ou, pra simplificar, EQM.
À princípio, pensei que tudo não passasse de efeitos dos remédios. Mas algumas coisas são realmente inexplicáveis, concorda? Afinal, como eu poderia saber quais eram as pessoas que estiveram lá na sala de espera do hospital enquanto eu era operada?

Só tenho motivos pra comemorar
A minha EQM aconteceu há 10 anos e deixou marcas profundas em minha personalidade. Após o acidente, muita gente dizia que meu comportamento era irreconhecível! Antes, eu era muito brava, briguenta, me ofendia por qualquer coisa. Depois, passei a ser uma pessoa bem mais calma e compreensiva.
Me sinto renascida e essa impressão me acompanha até hoje. Depois de ter colocado um pezinho lá do outro lado e voltado inteirinha, tomei consciência de que sou muito mais do que o meu corpo. Hoje, só tenho motivos pra aproveitar ao máximo meus dias."

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O que é Experiência de Quase-Morte (EQM)?

       Ao longo da história da humanidade, homens e mulheres se questionaram sobre o que acontece na hora da morte e buscaram explicações na filosofia ou na religião; esta busca continua até hoje e já existem investigações científicas a este respeito. Na ciência, Raymond Moody, introduziu o termo “Near Death Experience ou NDE” (Experiência de Quase-Morte ou EQM, em português). Este termo passou a ser usado para se referir à experiências subjetivas que eram relatadas por pessoas que estiveram à beira da morte, mas retornaram.
As EQMs apresentam alguns elementos característicos, que se repetem nos relatos de diferentes pessoas, como a visão de um túnel e de uma luz forte, a sensação de estar em uma outra dimensão, a sensação de estar fora do corpo e de poder vê-lo de cima, um sentimento de paz, a percepção de seres não-físicos, a experiência de rever a sua vida, entre outros fenômenos incomuns (Greyson, 2007; Parnia & Fenwick, 2001). Os cientistas estão buscando formas de compreender estes fenômenos, que para os religiosos podem ser confirmações de sua fé.
Mas e você, o que acha? As EQMs confirmam as ideias religiosas? A ciência será capaz de explicar tudo e retirar a EQM da esfera espiritual? Ou a EQM é uma ponte, que permitirá um maior diálogo entre a ciência e a espiritualidade? Se inspire no vídeo e responda a nossa enquete. E caso queira saber de mais informações, leia o texto “Aprofundando”. 

Reportagem de EQM (Experiência de Quase-Morte) no Fantástico-2: 

Aprofundando


Greyson (2007) informa que estas experiências já eram descritas esporadicamente no século XIX. Mas foi apenas em 1975 que o termo EQM surgiu em um livro publicado por Moody, um médico americano, que divulgou experiências incomuns de 150 pessoas que quase morreram (Parnia & Fenwick, 2001). Antes de Moody, Heim, um alpinista suíço, foi o primeiro a descrever a sua experiência de quase-morte (Delgalarrondo, 2008).
Experiências desta natureza, que trazem conteúdos místicos e não se adéquam ás explicações usualmente aceitas, são tratadas como “experiências anômalas ou EAs” e estão associadas à definição do estado alterado de consciência (EAC), que nas palavras de Charles Tart (1972, como citado em Almeida e Lotufo Neto, 2003; p.22) é “uma alteração qualitativa no padrão global de funcionamento mental que o indivíduo sente ser radicalmente diferente do seu modo usual de funcionamento”.
EAs são consideradas elementos importantes nas sociedades, mas têm recebido pouca atenção da comunidade científica, ou são abordados de forma pouco rigorosa, e frequentemente são tratadas como fenômenos raros, associados à “culturas primitivas” ou como indicadores de psicopatologia. No entanto, várias pesquisas populacionais recentes têm demonstrado que estas experiências são muito freqüentes e nas últimas décadas tem havido um reflorescimento das pesquisas nessa área. (Almeida e Lotufo Neto, 2003).
É provável que o número de casos de EQMs aumente dado o avanço das técnicas modernas de ressuscitação (Serralta, Cony, Cembranel, Greyson & Szobt, 2010) e que o número de cientistas interessados no tema também cresça. Greyson (2007), por exemplo, aponta três grandes razões para pesquisar as EQMs: estas experiências geram mudanças abrangentes e duráveis nas crenças, valores e atitudes dos pacientes diante da vida e da morte; estas experiências podem ser confundidas com estados psicopatológicos, mas necessitam de uma abordagem diferente; e o estudo destas experiências poderá promover uma maior compreensão acerca do funcionamento da consciência e de sua relação com o cérebro.
As EQMs podem durar apenas alguns segundos ou minutos (Dalgalarrondo, 2008) e acontecem em crianças ou adultos, de culturas diferentes e independentemente da fé do paciente, embora haja diferenças culturais e religiosas no conteúdo subjetivo da mesma (Parnia & Fenwick, 2001). Os relatos obtidos revelam um conjunto de alterações nos processos cognitivos, pois a percepção funciona de uma forma radicalmente diferente, permitindo experiências extracorpóreas, e a memória também se altera, permitindo a experiência de rever toda a sua vida. A partir de Greyson (1983ª, como citado em Oliveira, n.d), é possível classificar essas alterações em quatro dimensões: a cognitiva, incluindo os pensamentos acelerados; a afetiva, incluindo a sensação de paz; a paranormal, incluindo a experiência extracorpórea; e a transcendental, incluindo o contato com seres não-físicos.
Nós pretendemos, através deste humilde blog, refletir sobre as polêmicas relações entre a mente e o corpo e entre a ciência e a espiritualidade, mostrar como a ciência vem estudando as EQMs, esclarecendo sobre as limitações no estudo desta área, e revelar os questionamentos e as interpretações propostas a partir de diferentes pontos de vista. Acreditamos que os interessados neste tema devem manter a cabeça e o coração abertos para diferentes verdades, pois ciência e religião possuem seus méritos e suas limitações; a busca pelo conhecimento deve ultrapassar a nossa necessidade de comprovar nossas próprias crenças ou hipóteses. Veja as próximas publicações. 

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O passado e o presente do estudo da EQM. Dificuldades e limitações.

Uma boa parte dos estudos sobre a EQM se propõe a encontrar as causas, a etiologia do fenômeno, mas ainda não há um consenso. As hipóteses explicativas propostas incluem variáveis relativas à aspectos biológicos, psicológicos e sociais; fatores lingüísticos também afetam os estudos. Existe ainda um embate entre “biológico x social”, mas todos nós temos uma herança cultural, abrangendo significados, normas e valores que orientam o nosso modo particular de ver o mundo e nós mesmos.
Por causa dessa influência cultural, as EQMs são investigadas através de estudos transculturais, além dos longitudinais Os estudos transculturais podem determinar quais são as características que permanecem invariáveis e quais são aquelas que são moduladas diante do contexto social. Já os estudos longitudinais são bons para inferências causais, pois permitem estabelecer uma sequência temporal de eventos, identificando o surgimento de cada variável associada. (Almeida e Lotufo Neto, 2003).
Há ainda estudos retrospectivos e prospectivos, os retrospectivos se baseiam nos relatos de pacientes que já vivenciaram uma EQM e os prospectivos acompanham pacientes que podem ou não vir a ter esta experiência. French (2001, como citado em Greyson, 2007) informa que a maioria dos estudos nesta área são retrospectivos e que isto é problemático na medida em que é difícil confiar na memória dos pacientes. Parnia e Fenwick (2001), por sua vez, relatam estudos prospectivos feitos com pacientes cardíacos que vivenciaram EQMs ao sofrer paradas cardíacas. E quanto ao uso de instrumentos de avaliação, o The Near-Death Experience Scale (NDE) é o principal, mas pesquisas serão necessárias para adaptá-lo ao português do Brasil (Serralta; Cony; Cembranel; Greyson; Szobt, 2010).
As investigações nesta área precisam associar diferentes métodos de pesquisa e diferentes saberes. Caso queira saber mais sobre as hipóteses, as dificuldades e as limitações das pesquisas nesta área, leia o texto “aprofundando”. E se quiser conhecer um estudo brasileiro, veja o vídeo do Globo repórter no qual aparece uma iniciativa da UFJF:



Aprofundando


Apesar do caráter biopsicosocial deste fenômeno, as hipóteses formuladas podem enfatizar mais uma dimensão do que as outras. French (2005; Greyson, 2000, como citado em Serralta; Cony; Cembranel; Greyson; Szobt, 2010) informa que teorias biológicas “acentuam a relação da EQM com hipoxia cerebral, anoxia, hipercarbia, funcionamento de neurotransmissores e atividades anormais nos lobos temporais” (p.36); as teorias psicológicas, por sua vez, “salientam que EQMs parecem constituir a expressão da dissociação como mecanismo de defesa diante de situações de perigo extremo” (p.36).
Algumas pesquisas revelaram a importância de fatores psicológicos. As EQMs são descritas como experiências que acontecem em situações de risco à vida, no entanto, estudos demonstraram que estas podem ocorrer em contextos nos quais o risco não é clinicamente real (Serralta; Cony; Cembranel; Greyson; Szobt (2010). O risco pode existir apenas na percepção subjetiva do paciente, o que gera a hipótese de que um dos fatores desencadeantes das experiências de quase-morte pode ser a crença que o paciente tem de que está efetivamente morrendo, o que seria uma variável complexa na compreensão da EQM.
Também é importante considerar os fatores lingüísticos. O repertório oferecido pelo vocabulário ocidental, pela linguagem cotidiana, revela-se insuficiente e inadequado para a descrição de vivências espirituais. Quem nunca chegou a afirmar que não tinha palavras para expressar algo? Imagine então esta sensação diante de uma experiência de quase-morte. Stevenson (1983, como citado em Almeida e Lotufo Neto, 2003) argumenta que algumas palavras como “alucinação”, por exemplo, são muito inapropriadas para descrever estas experiências, principalmente quando usados por aqueles que não as vivenciaram; inibem o paciente.
Por estas razões, a avaliação semântica fornecida por um instrumento em diferentes culturas deve receber uma atenção especial, pois esta “envolve questões culturais e de linguagem que podem comprometer a validade conceitual e as propriedades psicométricas do instrumento” (Hauck e cols, 2006, como citado em Serralta; Cony; Cembranel; Greyson; Szobt, 2010, p.38). Desse modo, ao traduzir os relatos para outra língua é necessário se basear “nos conceitos envolvidos, e não nas palavras” (Alarcón, 1995, como citado em Almeida e Lotufo Neto, 2003, p.25).
Percebe-se que o tema é complexo e há dificuldades para estabelecer um consenso sobre a causa das EQMs. Critica-se, por exemplo, algumas incoerências ou falta de plausibilidade nas teorias biológicas, mas ao julgar algo como biologicamente plausível estamos nos baseando nos conhecimentos existentes e é preciso reconhecer que algumas idéias propostas podem parecer estranhas porque são novas para a ciência (Hill, 1965, como citado em Almeida e Lotufo Neto, 2003). Além disso, o ato de determinar uma causa “é sempre um julgamento feito pelo pesquisador à luz das evidências disponíveis” (Almeida e Lotufo Neto, 2003, p.26).
Como há uma influência social, temos a tendência de padronizar o “bom” ou “normal”, como aquilo que é padrão em nossa cultura, e como “ruim” ou “patológico” os fenômenos, costumes e visões de outras culturas. O mesmo acontece com relação aos diferentes tipos de consciência e os EAC, como a EQM. É o que mostram Almeida e Lotufo Neto (2003), ao afirmar que é comum “considerar um EAC como ‘bom’ ou ‘ruim’ avaliando-o apenas segundo os critérios mais desenvolvidos em nosso estado habitual de consciência (raciocínio lógico, habilidades matemáticas...)”(p.24). Há o julgamento de que o nosso estado ordinário de consciência é algo natural e o único modo de lidar corretamente com a realidade, porém nossas percepções são variadas e, apesar de terem base na realidade física, dependem dos recursos da nossa aparelhagem biológica e são moldados pelo ambiente cultural onde nos desenvolvemos.
      O pesquisador frente a esse tema, precisa se permitir ver que não há uma verdade absoluta, tendo uma abertura diante de outras perspectivas. A ciência não deve ignorar ou desqualificar a literatura produzida pelas próprias comunidades ou indivíduos que vivenciam os fenômenos em estudo, pois esta literatura pode enriquecer as investigações. Felizmente, a ciência já está mudando a sua postura diante do diferente e já há um reconhecimento, mesmo pelo DSM-IV, de que nem todas as experiências místicas são evidências de psicopatologia (Cardeña et al., 1994, como citado em Almeida e Lotufo Neto, 2003). Esperamos que o diálogo entre os diferentes saberes aumente e contribua para a investigação deste tema tão complexo. 


Bibliografias 

Todos as referências utilizadas estão na página "Indicações de vídeos e leituras". E se quiser conhecer mais sobre os estudos brasileiros  na área das experiências espirituais, visite o link e se informe sobre a iniciativa da UFJF. 
http://www.ufjf.br/nupes/linhas-de-pesquisa/experiencias-religiosas-e-espirituais/. 


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