quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Memórias e EQM

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Os estudos sobre EQM estão baseados, principalmente, nos relatos das pessoas que vivenciaram tal experiência. Ao produzir os relatos, as pessoas evocam as memórias do que teria ocorrido, no entanto, tal evocação não condiz totalmente com o que de fato ocorreu. As memórias existem no nosso cérebro como sinais elétricos e bioquímicos, que são codificados e traduzidos por nossos neurônios. Em cada codificação e tradução existem perdas e, por isso, as memórias não são retratos literais dos eventos de nosso passado. Além disso, a nossa forma de interpretar nossas memórias depende do contexto sociocultural no qual estamos inseridos e do nosso olhar no presente, que varia de acordo com as nossas emoções e momentos de vida. Portanto, ao relatar um fato ocorrido, evocando nossas lembranças, estamos também recriando o que aconteceu: “O individuo ao elaborar uma narrativa autobiográfica, pode subestimar ou superestimar aspectos que considera mais – ou menos – legítimos na sua trajetória, pertinentes ao contexto em que a narrativa é produzida” (Oliveira, Rego e Aquino, 2006, p. 128). Dessa forma, os relatos de EQMs não podem ser considerados uma reprodução fiel das experiências vividas. Mas esta não é a única discussão presente quando estudamos as memórias associadas às experiências de quase-morte; é preciso refletir também sobre como estas memórias são formadas diante da possibilidade de um período de inatividade cerebral.
www.cpt.com.br
Uma das grandes polêmicas presentes no tema das EQMs se refere ao estado de ativação cerebral: o cérebro estaria ativo ou inativo durante a experiência memorizada? Muitos relatos remetem à períodos em que o cérebro da pessoa estaria inconsciente, fora do estado de ativação considerado normal. E os cientistas se perguntam se é possível formar memórias em períodos de inconsciência. Greyson (2007, como citado em Alves, 2013), por exemplo, afirma que algumas pesquisas comprovam que em paradas cardíacas ou sobre anestesia geral ainda pode existir percepção sensorial, pensamento e memórias, embora tal constatação seja incompatível com os modelos fisiológicos atuais. Lopes (n.d) informa na revista Veja que no processo de desligamento do cérebro as funções superiores (memória e cognição) são as primeiras a serem inativadas, enquanto as funções vitais (respiração e pressão arterial) são as últimas a serem afetadas. Mas, antes ou depois deste processo podem ocorrer picos de intensa atividade cerebral, envolvendo um funcionamento atípico dos neurônios; alguns autores, como o neurologista Paulo Bertolucci, acreditam que as EQMs ocorrem nestes picos e não durante os períodos de inatividade.
Esta questão permanece em debate para os pesquisadores que partem do paradigma da consciência localizada no cérebro. Porém, aqueles que defendem o paradigma da consciência não-local, não consideram isso um problema. Para eles, a consciência não depende do estado de ativação cerebral e, por isso, as memórias ou outras funções superiores podem existir em períodos de inativação (ver “Consciência Quântica”). Partindo de um ponto de vista religioso, isto também não seria um problema, pois a consciência estaria em uma alma ou em um espírito e pode haver inclusive memórias de outras vidas, como defendem os espíritas.
Como curiosidade, vale a pena mencionar que existem discussões científicas sobre as memórias do parto. Uma das teorias já propostas para explicar alguns aspectos das experiências de quase-morte, como a sensação de amor e a percepção de um túnel de luz, se refere às memórias do momento do nascimento. O individuo recorda a passagem pelo canal vaginal e o acolhimento da mãe.  Entretanto, esta teoria não se adequa aos casos de parto cesariano e não encontra apoio no argumento científico de que os recém-nascidos não possuem maturidade orgânica suficiente para registrar a memória deste momento. No entanto, é importante informar que existem algumas indicações incomuns de casos em que crianças pequenas relatam sobre o que aconteceu em seu nascimento (Ring e Cooper, 1997).
http://obraincompleta.wordpress.com/
 Apesar das várias discussões apresentadas sobre a confiabilidade e a possibilidade de evocar ou formar memórias em experiências de quase-morte, os relatos produzidos pelas pessoas são psicologicamente reais para elas. Sendo realidades recriadas ou não, são realidades para aqueles que as relatam. Afinal, nos definimos enquanto sujeitos a partir de nosso discurso acerca de nossas lembranças: nossas memórias e esquecimentos “não só nos dizem quem somos, mas também nos permitem projetar rumo ao futuro, isto é, nos dizem quem poderemos ser” (Izquierdo, 2002, p.09). Independentemente do estado cerebral no momento da formação das memórias relatadas ou da confiabilidade das mesmas, é através dos relatos elaborados que as pessoas interpretam a experiência vivida e orientam a sua maneira de encará-la daqui pra frente, definindo as suas possibilidades de ser e vir-a-ser.

Referências Bibliográficas

Alves, E. (2013). Experiências de Quase Morte: um estudo dos aspectos psicológicos.Psicologado. Disponível em: <http://artigos.psicologado.com/atuacao/tanatologia/experiencia-de-quase-morte-um-estudo-dos-aspectos-psicologicos>. Acesso em nov. 2013. 

Izquierdo, I. (2002). O que é memória?.  In: Izquierdo, Iván. Memória. Porto Algre: Artmed.

Oliveira, M.K; Rego, T.C; Aquino, J.G. (2006). Desenvolvimento Psicológico e Constituição de Subjetividades: Ciclos de Vida, Narrativas Autobiográficas e Tensões da Contemporaneidade. Pro-Posições, v.17, n.2 (50). 

Ring, K.; Cooper, S. (1997). Near-Deatj and Out-of-Body Experiences in the Blind: A study of Apparent Eyeless Vision. Journal of Near-Death Studies, 16(2). Disponível em: <http://kernz.org/nd/nde-papers/Ring/Ring-Journal%20of%20Near-Death%20Studies_1997-16-101-147-1.pdf>. Acesso em fev/2013.

Links
Lopes, A. D. Coma: O dia em que Morri. Veja/2010

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Buscando Respostas

Nas postagens anteriores “Transformações Transcendentais”, “Diversidade no Paraíso” e “Diversidade nas EQMs” refletimos sobre algumas lacunas nos estudos das experiências de quase-morte, apontando a necessidade de mais investigações. Informamos sobre a ocorrência de EQMs em diferentes contextos culturais e sobre alguns efeitos intrigantes que tais experiências podem produzir naqueles que as vivenciam. Nestas postagens percebe-se a importância de compreender a participação da mente nestas experiências e o papel da subjetividade e do contexto sociocultural na mesma. 

Recentemente, tivemos a oportunidade de conhecer pessoas que vivenciaram EQMs ou experiências semelhantes. Merece destaque o relato de pessoas que citam “crises de ausência” ou a capacidade de sair do próprio corpo e não conseguiram encontrar apoio dentro da psicologia ou da saúde. Alguns casos como estes podem ser interpretados como indicadores de psicopatologia e esta é, freqüentemente, a única resposta que a psicologia é capaz de oferecer. No entanto, quando estes casos não podem ser considerados patológicos é preciso buscar outras respostas.

Woolger (n.d) nos fornece uma outra possibilidade de encarar estas experiências: sendo reais ou não em termos concretos, elas estão na mente e são psicologicamente reais. Embora a ciência ocidental esteja estudando este fenômeno recentemente, o oriente já desenvolveu muitas possíveis respostas, que foram inclusive analisadas pelo próprio Jung na elaboração de suas idéias e que aparecem também em algumas teorias da física quântica (ver “Consciência Quântica”). O Livro Tibetano dos Mortos, por exemplo, informa que a pessoa fará uma viagem durante a morte até o próximo nascimento e enfrentará neste caminho os seus próprios conflitos, que se revelarão em uma realidade percebida nos estados intermediários entre uma vida e a outra.

Independentemente de considerar tais experiências como produtos de alterações cerebrais, como indicadores da existência de uma consciência não-local ou como realidades espirituais, elas são uma oportunidade incrível para que alguém entre em contato com as suas questões existenciais mais profundas, estando diante da morte ou não. Algumas pessoas podem procurar tal contato através de drogas como LSD, Ayahuasca ou "Jurema", enquanto outras buscam em meditações. Por isso, é importante enfatizar que a psicologia deve ser capaz de auxiliar as pessoas que vivenciaram ou que procuram vivenciar este contato, contribuindo para que esta oportunidade seja de fato positiva.

Conheça mais sobre a visão do “Livro Tibetano dos Mortos”




Links (referências) 

Transformações Transcendentais

A maioria das pessoas que passam pela experiência de quase-morte relatam mudanças em seus comportamentos. Essas mudanças podem ser positivas e/ou negativas, dependendo do tipo de vivência tido. A presença com o ser de luz, a compaixão e a paz oferecidas pelo mesmo, faz com que os indivíduos ao retornarem, queiram ser melhores no trato com os outros e ter atitudes positivas diante da vida. As principais alterações positivas são: aumento da espiritualidade, redução do medo perante a morte, apreciação dos pequenos detalhes da vida e sensação de união com todas as coisas.

portaldossegredos.blogspot.com 
 Contrariamente a isto, há aqueles que relatam experiências negativas, onde ouviram vozes de maldição e viram seres que causavam medo e temor. Muitos podem vir a ter depressão e comportamentos conflituosos com outras pessoas. Contudo, a maioria daqueles que passam pelas experiências de quase-morte são afetados mais positivamente do que negativamente. Uma comprovação disto pode ser vista no estudo feito por Van Lommel et al, eles mediram a qualidade de vida dos sujeitos após a experiência usando o Life Change Questionnaire. A pesquisa mostrou mudanças positivas nas atitudes sociais e religiosas em tais indivíduos (Fenwick, 2013). 


www.reymisterios.com 
Além disto, existem sujeitos que tiveram comportamentos paranormais depois da EQM, como “pré-cognição, intuição, clarividência, telepatia, habilidades de cura e percepção da aura” (Fenwick, 2013 p.205). Há outros que descrevem experiências de cura, como por exemplo, Mellon Thomas Beneditct, que afirma ter sido curado de um câncer (http://www.mellen-thomas.com/quotes.html).

Dentro da área da psicologia, podemos constatar uma falta de preparo dos profissionais em lidar com esses tipos de comportamentos transformados. A maioria das pessoas que tiveram mudanças em suas vidas após a vivência são sujeitos sem alterações patológicas. Entendemos que deve-se ter um avanço nos estudos sobre este tema de forma que amplie as concepções do mesmo. O fato de existirem ainda indivíduos que relatam ter capacidades paranormais sem nunca ter vivenciado uma EQM, ressalta a importância de mais estudos para que os profissionais da psicologia estejam mais aptos para lidar com essas situações. É necessário que o psicólogo ao se deparar com tais sujeitos esteja atento a esses pontos relevantes. 

Referências Bibliográficas
Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-207. 

Diversidade no Paraíso

Fenwick (2013) informa que “há muitas evidências de que o conteúdo de uma experiência mental é em si dependente da cultura na qual ela se dá” (p. 204). Podemos perceber isso nas singularidades de cada relato, as pessoas visitam dimensões diferentes e se comunicam com seres diferentes. Jung, por exemplo, relatou ter visto um hindu negro e um templo, semelhante ao que havia visitado em Sri Lanka. No mito de Platão, Er se encontra com juízes. (Ver publicação “de Platão até Jung”). No marcador ao lado “Relatos de Experiências”, percebe-se ainda mais diversidade:


destruidordedogmas.com.br 
"Um homem narrou que enquanto recuperava-se de uma cirurgia cardíaca, em uma UTI hospitalar, viu sair, dos cantos das paredes do teto do quarto, imagens assustadoras, de forma física indefinida, que voavam na sua direção como a querer sugar sua energia. Eram, segundo ele, vampiros na sua forma física e cor.(escuros e com dentes enormes) Ele, entubado, não conseguia gritar ou pedir socorro. Foi a aceleração do seu batimento cardíaco que chamou a atenção de médicos que o fizeram dormir através de uma injeção de calmante." (disponível em:  http://sobrenatural.org/relato/detalhar/10098/eqm___imagens_que_assustam/).



“Tudo tão confuso... E nesse momento um anjo apareceu diante de mim. Ele emitia uma luz forte, amarela e laranja




weddinghigoredani.blogspot.com
Ao prosseguir instintivamente por esse túnel turbulento que se movia em todas as direções, acima, abaixo e lateralmente, tendo como único som o zumbido de minhas asas tal como um beija-flor, uma Luz brilhante no fim desse redemoinho dissipou progressivamente a escuridão do túnel e, igualmente, a luz azul néon que as paredes refletiam”. (disponível em: http://www.nderf.org/Portuguese/august_eqm.htm)




sylribeiro.blogspot.com 



Osis e Haraldsson (citados em Banzoli, 2011) informam que indianos costumam ver divindades hindus e ocidentais, imagens cristãs. Uma indiana narrou que foi conduzida para o céu em uma vaca, enquanto um americano viu São José no seu caminho.





 E diante de tanta diversidade, surgem muitas perguntas: existiria uma realidade quântica, além deste mundo, com uma infinidade de dimensões? As diferenças relatadas estão apenas nas interpretações ou verbalizações das experiências? Tudo é apenas criação da nossa mente? Quem poderá nos dizer?

Referências Bibliográficas
Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-207. 

Banzoli, L. (2011). Disponível em: http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/index.php?pagina=1080325858

Diversidade nas EQMs

www.infonet.com.br
Na ciência ocidental, o tema “Experiências de Quase-morte” é recente; faz apenas 30 anos que Raymond Moody publicou sobre (Fenwick, 2013). Desde que o tema começou a ser investigado cientificamente, há uma tendência de buscar padronizações e estruturações (ver os marcadores "O que é" / "Como este tema é pesquisado?"). Dentro desta perspectiva de pesquisa, que pode ser considerada empírico-analítica, diferenças culturais e subjetivas podem ficar em segundo plano. Em um artigo publicado pelo site da Horizon Research, intitulado “Religião e Cultura afetam as Experiências de quase-morte?”, afirma-se o interesse científico de universalizar o fenômeno em estudo. Considerando que o interesse ideológico adotado pelo pesquisador pode vir a influenciar o resultado da pesquisa, é necessário que outros estudos analisem o fenômeno a partir de outro enfoque. Adotar uma perspectiva histórico-hermenêutica pode ser um caminho para compreender as especificidades e singularidades das EQMs.
De fato, muitos estudos indicam que alguns elementos (experiência de estar fora do corpo, percepção de luz ou de seres não-físicos, mudanças após a vivência) se repetem nos relatos independentemente da idade ou do contexto sociocultural. Entretanto, é inegável que estes elementos estão historicamente presentes também em outras culturas e em contextos diferentes da “quase-morte”. Singh Ji Maharaj (n.d), por exemplo, informa que através da meditação “a pessoa pode viajar pelo além e gozar da mesma bem-aventurança e amor descritos por aqueles que tiveram experiências de quase-morte” (p. 02). Além disso, diferentes religiões defendem que somos capazes de entrar em contato com seres de outros mundos não-físicos: os espíritas se comunicam com os falecidos, os cristãos podem ver anjos ou santos e ainda há aqueles que interagem com orixás ou espíritos da natureza.
conscienciaearesposta.blogspot.com
O uso de drogas, como o LSD, Ayahuasca ou "Jurema", também pode gerar a percepção de seres não-físicos e transformações pessoais. Kelmer (2001) relata sua experiência ao usar "Jurema" e diz que foi "conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas". Muitas das pessoas que utilizaram o LSD também relatam ter tido experiências espirituais que mudaram a sua forma de perceber o mundo. No próprio âmbito hospitalar experiências semelhantes são vivenciadas por pessoas próximas da morte e, neste caso, são chamadas “visões no leito de morte”. Há inclusive casos relatados por pacientes que foram diagnosticados com alguma psicopatologia. Mas, na perspectiva empírico-analítica esta diversidade de contextos fica em segundo plano, pois há uma necessidade científica de delimitar o objeto em estudo. Greyson, por exemplo, desenvolveu, em 1983, uma escala para distinguir e identificar aqueles que vivenciaram uma EQM; a escala é subdividida em quatro dimensões (cognitivo, afetivo, paranormal e transcendental) e a distinção é realizada a partir das pontuações obtidas (Fenwick, 2013; Fernandes, s.d).

http://pensaralem.files.wordpress.com/
A diversidade cultural também aparece na interpretação e verbalização das experiências, como informa o site da “Horizon Research”. Há muitas singularidades nos relatos. No entanto, poucos estudos focam nesta diversidade. Veja a próxima postagem “Diversidade no Paraíso” e reflita sobre as influências culturais na quase-morte.



Referências Bibliográficas
Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-7. 

Bauer, M. W.; Gaskell, G. (2002). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático /  tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópoles, R.J: Vozes.  

Links

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Diante da Morte

       Neri (2006) informa que ao perceber a proximidade da morte, as pessoas mais velhas ou jovens em estado terminal iniciam transformações em suas vidas, buscando valorizar mais os momentos e as relações sociais mais significativas/positivas. Além disso, informa que embora não haja uma relação necessária entre idade e sabedoria, alguns estudos mostram que idosos apresentam níveis elevados na resolução de problemas existenciais. Seria necessário nos basearmos em outros estudos para afirmar se a proximidade da morte é um fator crucial para o desenvolvimento subjetivo da sabedoria. Mas sabemos que, independentemente da idade, as pessoas que vivenciam experiências de quase-morte relatam mudanças em suas atitudes. 
EQMs trazem conteúdos subjetivos, culturais e religiosos, impactam a vida das pessoas e geram reflexões. Podem durar muito pouco, acontecer diante de um perigo real ou aparente de morte, podem ocorrer em qualquer idade e em qualquer pessoa, religiosa ou não. Muitos relatam que durante uma EQM vivenciaram a lembrança de toda a sua vida e, por isso, quando voltam buscam ser pessoas melhores (veja os marcadores ao lado).  No entanto, isso não ocorre apenas na presença de tais experiências: Bronnie Ware trabalhou com cuidados paliativos, acompanhando os pacientes nos seus caminhos entre a vida e a morte, ela coletou durante o seu trabalho as cinco coisas das quais as pessoas mais se arrependem antes de morrer (http://www.inspirationandchai.com/Regrets-of-the-Dying.html). Veja quais são os cinco arrependimentos mais comuns:


1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida verdadeiramente minha, e não a vida que esperavam que eu tivesse.
2. Eu não deveria ter trabalhado tanto.
3. Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos.
4. Eu deveria ter mantido contato com os meus amigos.
5. Eu deveria ter me permitido ser mais feliz.
            

  
             A morte é uma certeza que provoca grandes questionamentos: "qual o sentido da vida?", "o que acontece depois?". Estas questões existenciais para as quais buscamos respostas nos remetem à espiritualidade, que pode ser vivida ou percebida de formas diferentes de acordo com a opção religiosa de cada um. A psicologia enquanto ciência não segue nenhuma religião, no entanto reconhece a importância da espiritualidade e da religiosidade no enfrentamento da vida e da morte (ver o marcador ao lado "Espiritualidade e Saúde". E quando se trata de experiências de quase-morte, incluindo a percepção de seres não-físicos e de outras dimensões, não podemos saber se o conteúdo dos relatos de tais experiências se refere ou não à um mundo real. Alguns podem afirmar que estes relatos são reações de defesa diante do perigo da morte (ver marcador ao lado "O Cérebro nas EQMs") e outros podem acreditar em outro nível de existência, mas todos os profissionais da saúde precisam encontrar formas de lidar com a necessidade espiritual dos pacientes, reconhecendo-a e valorizando-a. Saber lidas com estes questionamentos e com estes cinco arrependimentos é uma questão de saúde e todos nós, seres humanos, devemos ser capazes de pensar nisso antes de morrer, pois afinal, não precisamos esperar uma quase-morte para querer viver uma vida da melhor forma possível! Comece agora mesmo a ser mais feliz. 
    
Referências Bibliográficas:
Neri, A. L. (2006). O legado de Paul B. Baltes à Psicologia do Desenvolvimento e do Envelhecimento. Temas em Psicologia, vol. 14, n 1, pp. 17-34.  

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Consciência Quântica

            A partir de Delgalarrondo (2008) é possível compreender que há diversas concepções sobre a consciência, o termo pode se referir a: um estado de ativação cerebral que oscila em níveis (sono – vigília); soma de experiências conscientes ou a capacidade de perceber e interagir com a realidade conscientemente. Além destas concepções, temos a visão espiritual e religiosa de que a consciência está presente em um espírito ou alma. Apresentaremos agora a visão defendida pelo professor Stuart Hameroff da Universidade do Arizona, que já foi divulgada anteriormente pelo cientista Robert Lanza. É necessário esclarecer que esta nova visão parte da concepção da consciência como uma soma de experiências conscientes.
            Dentro desta nova visão a consciência não está localizada no cérebro, que, por sua vez, pode ser comparado a um “computador quântico”. O cérebro seria o receptor desta consciência, na qual se encontra o conjunto de informações conscientes que o indivíduo adquiriu ao longo de sua existência. Dentro da visão quântica existem unidades armazenadoras de informações em todo o universo e não só no cérebro.   A partir desta constatação é possível conceber a conexão entre estas unidades armazenadoras, dentro e fora do cérebro, e a consciência, contendo as informações armazenadas, estaria também conectada ao universo como um todo. O vídeo a seguir explica essa visão:


            A concepção de uma consciência não local foi compartilhada pelo pesquisador Jacobo Grinberg da Universidade do México, que realizou um experimento no qual duas pessoas se comunicaram sem nenhuma troca de sinais. Neste experimento os resultados foram avaliados pelo exame de EEG e as pessoas ficaram separadas em duas “Gaiolas de Faraday” diferentes, cujas paredes impediam a passagem de ondas eletromagnéticas. Esta pesquisa foi repetida por Peter Fenwick em 1998 e por Leona Standish em 2004, obtendo resultados semelhantes. Veja mais detalhes no vídeo "Telepatia e Ciência: As Evidências - O Ativista Quântico - Amit Goswami" disponível no link: http://www.youtube.com/watch?v=myvdp_qAyp0
          A ideia de uma consciência não local aproxima pesquisas científicas de uma concepção que já existia há muito tempo nos discursos espirituais de algumas religiões, pois indica a existência de uma dimensão extracorpórea. Além disso, dentro desta visão existiria uma alma eterna, que seria constituída pelo mesmo “tecido” do universo; corroborando com as crenças hindus e budistas de que somos parte de uma consciência suprema e infinita, que, por sua vez, constitui o universo. O tema ainda está sendo estudado e os debates continuarão.

Acesse mais informações no link a seguir:
http://www.gamevicio.com/i/noticias/179/179404-cientista-afirma-que-a-teoria-quantica-prova-que-a-consciencia-vai-para-outro-universo-pos-a-morte/

Referências Bibliográficas
Delgalarrondo, P. (2008). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Editora: ArteMed. 

Consciência, Ciência e Espiritualidade


O termo Experiência de Quase-Morte surgiu a partir de um livro publicado por Raymond Moody, que descreveu experiências de pessoas que quase morreram. Estas experiências incluem a visão de um túnel e de uma luz forte, a sensação de estar em uma outra dimensão, a sensação de estar fora do corpo e de poder vê-lo de cima, um sentimento de paz, a percepção de seres não-físicos, a experiência de rever a sua vida, entre outros fenômenos. O estudo deste tema levanta polêmicas, dentre as quais destacaria a questão da consciência e da espiritualidade.
             O conceito de consciência já é por si só bastante controverso. Delgalarrondo (2008) informa que o termo “consciência” pode ser usado com diversos significados: referindo-se a um estado de ativação cerebral que oscila em níveis (sono ou vigília); referindo-se a soma das experiências conscientes ou a capacidade subjetiva de perceber e interagir com a realidade. Além disso, a consciência é considerada uma função da mente e desde a época de Descartes há um debate sobre a relação entre a mente e o corpo. Partindo de concepções religiosas, a mente e a consciência podem estar associadas a uma alma, mas para a neurociência ambas estão localizadas no cérebro, dependendo do seu funcionamento.
            A ciência busca entender se as experiências de quase-morte resultam de processos cerebrais alterados, que causariam estados alterados de consciência, produzindo os fenômenos relatados. Porém, se estas experiências ocorrerem em períodos de inconsciência (diminuição ou ausência de ativação cerebral) diante de diagnósticos de morte clínica, pode-se questionar se a consciência e os processos mentais realmente dependem do funcionamento cerebral. E é neste ponto que a ciência encontra a espiritualidade: existiria alma? Vida após a morte?
            A ciência nasceu buscando novas explicações, além das fornecidas pela religião. A religião acabou se tornando um objeto de estudo da própria ciência e as experiências religiosas ou espirituais também são investigadas. É importante destacar que religião e espiritualidade são diferentes, neste blog compreendemos que a religião é uma forma de vivenciar a espiritualidade dentro de determinados contextos socioculturais. Mas a espiritualidade não está limitada a uma religião específica e pode ser compreendida como um contato com pensamentos e sentimentos superiores ou transcendentes (Elias e Giglio, 2002). 
            Koenig (2001, como citado em Peres et. al., 2007)  defende uma visão semelhante à nossa quando informa que há uma diferença entre espiritualidade e religião, sendo a última conceituada como "[...] um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos projetados para auxiliar a proximidade do indivíduo com o sagrado e/ou transcendente", enquanto a espiritualidade seria "[...] uma busca pessoal de respostas sobre o significado da vida e o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente" (p.137). 
         Quando a ciência se encontra com a espiritualidade, os pesquisadores buscam explicações que ultrapassem as fronteiras religiosas. Ou seja, não se busca a confirmação das crenças de determinadas religiões, mas considera-se o conteúdo espiritual do fenômeno a ser estudado, ainda que as hipóteses explicativas propostas pela ciência possam divergir  dos discursos espirituais. 
             No estudo das EQMs, produzido neste blog, a espiritualidade aparece de duas formas. Nos relatos sobre as experiências, percebe-se, em sua maioria, a espiritualidade como uma busca pela transcendência, produzindo efeitos na subjetividade de quem as vivenciou (ver o marcador ao lado sobre Religião e EQM / Espiritualidade e Saúde). Neste sentido, a espiritualidade se encaixa na conceituação proposta anteriormente. Por outro lado, a espiritualidade aparece em conflito com a ciência na discussão sobre a localização da consciência: alguns pesquisadores buscam comprovar que a mesma está localizada no cérebro (ver marcador ao lado sobre  O Cérebro nas EQMs), enquanto outros aceitam e investigam a possibilidade da não-localidade (ver publicação sobre Consciência Quântica), que converge com o discurso espiritual.
                  Consideramos que a espiritualidade entraria como complemento na tentativa de preencher lacunas na ciência, mas que esta pode encontrar outras explicações. Porém, ainda que os cientistas consigam confirmar o pressuposto de que a consciência é produto do cérebro, o conteúdo espiritual, como uma busca pela transcendência, permanecerá presente nas vivências destas experiências. Portanto, nosso objetivo é mostrar que apesar das divergências entre os diversos pontos de vista, tanto a ciência quanto a espiritualidade estão presentes no estudo deste tema e um diálogo entre estas duas dimensões enriquece a compreensão deste complexo fenômeno. 
            
Você pode buscar mais informações sobre o tema acessando os marcadores ao lado, “O que você quer saber?”, e se quiser saber quem são as autoras deste blog, acesse “Quem Somos”. 

Referências Bibliográficas:

PERES, J.F.P. et al. (2007). Espiritualidade, religiosidade e psicoterapia. Revista de Psicologia. Clínica. v.34, supl 1, p.136-145. Disponível em: <http://www.julioperes.com.br/upload/files/52ee3fd717.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2014

Mais referências em "Indicações de Vídeos e Leituras"

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

de Platão até Jung

               Experiências místicas, como as de quase-morte sempre existiram ao longo do tempo nas diversas sociedades humanas. Platão, por exemplo, através do mito de Er, conta a história de um homem que após ser declarado morto, retoma a consciência e relata sua visita a um lugar divino: ao chegar no local aonde os juízes pronunciam as sentenças, Er descobriu que fora escolhido para ser o mensageiro e informar aos homens o que existe do outro lado (Platão, 2005, como citado em Roscio, n.d). Além disso, curiosamente, alguns dos fenômenos relatados nas EQMs (percepção de uma luz, acessar outras dimensões ou elevar-se sobre o próprio corpo) também estão presentes em relatos muito antigos sobre experiências de yoga ou meditação dentro da cultura oriental (Singh Ji Maharaj, n.d).
             Porém para a ciência moderna no ocidente, o tema é recente; faz apenas 30 anos que Raymond Moody publicou sobre (Fenwick, 2013). Em 1990, o desejo de desvendar e comunicar o que acontece depois da morte, presente no mito de Platão reaparece em um filme americano, “Linha Mortal”, no qual estudantes de medicina decidem induzir em si mesmos experiências de quase-morte para revelar o que ocorre. Desde que o tema começou a ser investigado na ciência moderna, há uma tendência de estudá-lo a partir de uma perspectiva ocidental, buscando padronizações e estruturações (ver os marcadores "O que é" / "Como este tema é pesquisado?"). No entanto, as EQMs são marcadas por aspectos culturais e as pesquisas precisam considerar e aprofundar o conhecimento acerca do contexto sócio-histórico deste tema. 
       O caso de um famoso psicólogo de base analítica, Carl Jung, revela como elementos culturais diversos podem aparecer em uma experiência de quase-morte e como esta impacta profundamente as pessoas, gerando reflexões sobre as questões existenciais da humanidade e caracterizando-se como um fenômeno complexo:

“Considerando-se em geral, minha doença foi uma experiência muito válida; ela me deu  a  oportunidade  inestimável  de  olhar  por  trás  do véu.  A  única  dificuldade  é  livrar-se  do  corpo,  ficar  nu  e  vazio  do mundo  e  da  vontade  do  eu.  Quando  se  pode  desistir  da  louca vontade de viver e quando se cai aparentemente num nevoeiro sem fundo, então começa a vida verdadeiramente real com tudo o que foi intencionado e nunca alcançado. É algo inefavelmente grandioso. Eu estava  livre,  completamente  livre  e  inteiro,  como  nunca  me  havia sentido  antes.  Eu me  sentia  a  15.000  quilômetros  da  terra  e  a  via como  imenso  globo  brilhando  numa  luz  azul,  indizivelmente  bela.” (Jung: Carta 01.02.1945, como citado em Roscio, n.d)

“Teme-se usar a expressão  “eterno”;  não  posso,  entretanto, descrever  o  que  vivi  senão  como  a    beatitude  de  um  estado intemporal,  no  qual  presente,  passado  e  futuro  são  um  só.  Tudo  o que ocorre no  tempo concentrava-se numa  totalidade objetiva. Nada estava  cindido  no  tempo  e  nem  podia  ser  medido  por  conceitos temporais.  [...] Um  todo  indescritível no qual estamos mergulhados e que, no  entanto,  podemos  perceber  com  plena  objetividade.”  (Jung, 2002:258, como citado em Roscio, n.d)

"À direita da entrada, um hindu negro sentava em silêncio em postura de lótus sobre um banco de pedra. Ele usava um manto branco, e eu sabia que ele esperava por mim. Dois passos me levaram a essa antecâmara, e, no interior, à esquerda, estava o portão do templo. Inúmeros nichos pequenos, cada um com uma concavidade do tamanho de um pires preenchido com óleo de coco e pequenas mechas ardentes, cercavam a porta com uma grinalda de chamas brilhantes. Eu tinha visto isso uma vez, na verdade, quando visitei o Templo do Dente Santo em Kandy, no Ceilão (Sri Lanka). [...] Lá eu finalmente iria entender – e isso também era uma certeza – o sentido (nexo) histórico a que eu ou minha vida estávamos conectados"(disponível em Pereira, 2012)

Consideramos que ainda serão necessárias muitas pesquisas para compreender verdadeiramente este tema, que sempre gerou reflexões na humanidade e até hoje permanece uma interrogação. Você pode conhecer mais sobre as hipóteses e os conhecimentos construídos sobre as EQMs, bem como outros relatos, visitando os nossos marcadores ao lado, lendo nossas postagens e acessando as indicações de vídeos e leituras. 

Referências Bibliográficas

Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-7. 

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Curiosidades

O tema "Experiência de Quase-Morte" é de fato complexo, há muitas hipóteses e muitos mistérios. Quando se trata da morte alguns podem defender que somos apenas aglomerados de átomos - nosso corpo e nossa personalidade deixarão de existir, nossos genes poderão continuar existindo em outras pessoas e nossos átomos irão se espalhar por aí - nada mais. Outros podem dizer que somos almas, espíritos, partes integrantes de Deus. Mas a verdade é que ninguém sabe de fato o que acontece depois da morte e, como diria Shakespeare, Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe vossa vã filosofia”. Veja, por exemplo, algumas curiosidades bizarras, porém possíveis, sobre EQMs:

  •             Uma EQM pode alterar o campo eletromagnético, fazendo com que as pessoas sejam capazes de afetar ou mover utensílios elétricos; algumas pessoas não podem usar relógios, porque eles não funcionam. (Melvin Morse)
  •            Há também indicações de aumento da sensibilidade à luz, som e até à fatores meteorológicos (Atwater)
  •             Kenneth Ring diz ter encontrado relações entre a EQM e o despertar da kundalini, termo em sânscrito (hindu) que se refere a uma energia sagrada.
  •              EQMs podem produzir algumas alterações de personalidade ou até de memória. Algumas pessoas passam a acreditar que são alienígenas.
  •            O lobo temporal pode ser a área mística do cérebro. Wilder Penfield estimulou o lobo temporal do cérebro de alguns pacientes e isto gerou neles a sensação de estarem deixando os seus corpos.

De onde tiramos essas informações curiosas?
Borges, Walter da Rosa. EQM – Uma questão polêmica. Disponível em: <http://www.parapsicologia.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=30:eqm--uma-questao-polemica&catid=12:brasil-pernambuco>. Acesso em 2013

Nahm, M. (2011). Reflexões sobre o contexto de experiências de quase-morte.   Disponivel em: <http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/X_autores/XAVIER_Ademir_tit_reflexoes_sobre_o_contexto_de_experiencias_de_quasemorte_artigo_Michael_Nahm.htm >. Acessado em nov./2013.