domingo, 9 de fevereiro de 2014

Espiritualidade nas Psicoterapias

www.hierophant.com.br 
  Em “Transformações Transcendentais” e “Buscando Respostas” afirmamos que a psicologia ainda não é capaz de fornecer explicações para algumas experiências espirituais e defendemos a necessidade de que esta ofereça apoio para aqueles que vivenciam tais experiências. Dentro da psicologia científica, todas as abordagens se preocupam em considerar a forma como os sujeitos vivenciam a sua espiritualidade e reconhecem a importância desta dimensão para a saúde dos indivíduos. No entanto, nem todas lidam diretamente com experiências espirituais ou atribuem destaque a esta questão. Dentro das psicoterapias reconhecidas pela psicologia científica e pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), podemos citar a psicologia analítica de Jung e a Bioenergética como abordagens mais relacionadas com a espiritualidade.
Os seguidores de Jung atribuem grande importância aos símbolos ou “arquétipos” que estruturam a subjetividade das pessoas. Acreditam que é preciso prestar atenção à manifestação destes símbolos, sejam eles positivos ou negativos (“sombra”), para que se evolua em busca de mais realização e bem-estar. Segundo Carlos Amadeu Botelho Byington a “Espiritualidade, na psicologia junguiana é, então, a busca de um relacionamento das vivências com o Arquétipo Central, chamado de Deus nas religiões” (http://www.libertas.com.br/site/index.php?central=conteudo&id=2689). Na teoria junguiana, a espiritualidade é um dos cinco aspectos que devem ser elaborados pela psique durante o processo de individuação (http://sbpa-rj.org.br/site/?page_id=795). Na Bioenergética o tema aparece associado ao corpo: Alexander Lowen, fundador desta abordagem, escreveu um livro chamado “A Espiritualidade do Corpo. Bioenergética para a Beleza e a Harmonia”. Segundo Cristian G. Valeski de Alencar, esta abordagem considera o corpo como uma manifestação do espírito e, por isso, valoriza e trabalha com a dimensão energética dos corpos, acessando-a através de práticas com a respiração, entre outras (http://www.libertas.com.br/site/index.php?central=conteudo&id=3459).
Embora assumam questões espirituais, a Bioenergética e a teoria Junguiana são reconhecidas pelo CFP. O mesmo não ocorre com as "psicologias alternativas", como é o caso da “Transpessoal” ou da “Terapia de Regressão à vidas passadas”, por exemplo. Como informam Gauer, L. de Souza, Molin e Gomes (1997), estas psicologias adotam concepções que se distanciam da ciência e se aproximam da dimensão espiritual, incluindo uma forte influência de tradições orientais. Como a psicologia é um campo diversificado e em constante movimento, é possível que um dia algumas psicologias alternativas alcancem o reconhecimento científico. De qualquer forma, estas “psicoterapias” possuem o reconhecimento de pessoas que se identificaram com estes modelos e obtiveram bem-estar através deles.   
A psicologia Transpessoal, inclui em sua teoria conhecimentos da física quântica e de tradições orientais como o budismo, o hinduísmo e o taoísmo. Para esta abordagem a meta é desenvolver o indivíduo em todas as suas dimensões (física, emocional, mental e espiritual), buscando a expansão da consciência (http://www.humanitatis.com/formacao_transpessoal.asp). Segundo Vera Saldanha foi Maslow quem fundou a psicologia Transpessoal, motivado pela sua constatação da necessidade de considerar a dimensão espiritual dos seres humanos (http://www.alubrat.org.br/img/File/O%20que%20%C3%A9%20Psicologia%20Transpessoal%20por%20Vera%20Saldanha.pdf). Quanto às terapias de regressão, apesar do reconhecimento científico da hipnose, nem todas as técnicas utilizadas são reconhecidas e muito menos a existência de memórias de vidas passadas. Porém, o mais importante do ponto de vista terapêutico não é saber se existem memórias de outra vida ou se o conteúdo evocado pelas técnicas são apenas construções simbólicas do inconsciente, o que importa é saber se a "regressão" foi capaz de ajudar o indivíduo a ressignificar a sua história – veja os vídeos a seguir:  


+ Terapia de Regressão - Passado cura o presente: 
http://www.youtube.com/watch?v=jzfBM77rQKs.

Há ainda uma controversa área de pesquisas, conhecida como “Parapsicologia”, que busca reconhecimento acadêmico e defende o uso da metodologia científica para verificar a existência e a possibilidade de explicação dos fenômenos tidos como paranormais. Esta área existe há pouco mais de um século e ainda não há muitos consensos entre os próprios parapsicólogos ou reconhecimento por parte de outros pesquisadores. No entanto, a Parapsicologia continua investigando a paranormalidade e já obteve alguns resultados, incluindo indicações da existência da telepatia. É possível conhecer mais sobre esta área a partir de uma entrevista com o psicólogo Wellington Zangari, em um texto produzido por Carlos Chernij no site da “Superinteressante” (http://super.abril.com.br/cotidiano/parapsicologo-duvidar-crer-445644.shtml).

Esperamos ter contribuído de alguma forma para aqueles que gostariam de encontrar um apoio na psicologia, tendo um espaço maior para expor suas questões ou experiências transcendentais, sejam elas de quase-morte ou não. Lembrando que a espiritualidade aqui não é o mesmo que religiosidade, como já foi dito em “Consciência, Ciência e Espiritualidade”; espiritualidade é uma busca por um sentido maior, vivida de formas diferentes em diferentes religiões – e estas diferenças devem ser respeitadas em qualquer psicoterapia seja ela “científica” ou “alternativa”. 

Referências Bibliográficas
Gauer, G.; L. de Souza, M.; Molin, F. D; Gomes, W. B. Terapias alternativas: uma questão contemporânea em psicologia. Psicol. cienc. prof. v.17 n.2 Brasília  1997. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1414-98931997000200004&script=sci_arttext> Acesso em fev/2014.

Os cegos podem ver durante uma EQM?

          Alguns estudiosos têm observado relatos de pessoas cegas que afirmam ter vivenciado uma percepção visual durante suas experiências de quase-morte. Esta observação é um dos argumentos utilizados para sugerir ou apoiar a concepção de que a mente não está localizada no cérebro, havendo a possibilidade de existir uma consciência não-local capaz de obter informações inalcançáveis para os sentidos (Fenwick, 2013). Ring e Cooper (1997) realizaram uma pesquisa em que 80% dos cegos relataram experiências visuais durante EQMs. Os autores informam que muitos dos casos citados na literatura não são confiáveis, pois não foram adequadamente documentados para análise científica. No entanto, há sim casos intrigantes, como o famoso caso de Vicki (ver vídeo) que instigam os pesquisadores a buscar respostas.



          Uma das dificuldades encontradas nesta investigação é a linguagem. Pessoas cegas de nascença não são capazes de explicar o que é “ver”, pois não possuem representação visual, e ás vezes só conseguem afirmar que perceberam algo de uma forma jamais alcançada antes em sua vida. Além disso, cegos se comunicam usando termos do vocabulário visual da sociedade, ainda que o significado destes termos não possa ser o mesmo para cegos e não-cegos. Também se afirma que as pessoas podem estar apenas reproduzindo o discurso esperado para os casos de experiências de quase-morte, relatando os elementos que costumam aparecer; sabe-se que é possível recriar as memórias ao relatá-las (ver publicação sobre “Memórias e EQM”).

Ring e Cooper (1997) perceberam que apesar do uso de termos visuais, as experiências relatadas se aproximavam mais da descrição de uma percepção sinestésica e multifacetada. Os cegos são capazes de utilizar muito bem outros sentidos para construir “mapas espaciais” e reconhecer coisas e pessoas ao seu redor, compensando a ausência da visão; por isso, informações táteis, sonoras e térmicas podem aparecer juntas e até misturadas nos seus relatos.  Ainda assim, existem indicações de que, de fato, o sentido visual pode se manifestar em EQMs independentemente da condição física na qual este sentido se encontra durante a experiência.

Frank, vivenciou percepções visuais na infância, mas perdeu completamente a sua visão posteriormente. Ele relatou uma experiência de quase-morte na qual foi capaz de ver o seu próprio corpo e reconhecer a cor e o design da gravata que estava usando no momento, sendo que ninguém havia o informado sobre o aspecto visual desta gravata. Neste caso especificamente, existe uma evidência de que houve uma real percepção visual quando o sentido da visão não mais existia. Porém, Frank só foi capaz de fornecer este relato visual por já ter vivenciado a visão em algum momento da sua vida, o que não seria possível no caso dos cegos de nascença, que não podem informar sobre cores ou formas jamais percebidas anteriormente por eles.

Partindo da concepção de uma consciência não-local ou de uma concepção espiritual do ser humano, as percepções vividas durante as experiências de quase-morte transcendem os sentidos físicos. No entanto, partindo de uma concepção materialista, na qual a consciência e os sentidos dependem do cérebro e da condição física, seriam necessários mais estudos para compreender estes casos. E nestes estudos, a pergunta formulada é crucial, é necessário entender “como e quando os cegos enxergam durante uma EQM?”, “O que eles chamam de visão?”, “o que pode indicar se esta percepção é de fato visual?”. As perguntas orientam a forma de explicar um fenômeno e movem as pessoas em busca de novas formas de “ver” o mundo.


Referências Bibliográficas
Fenwick, 2013. As experiências de quase morte (EQM) podem contribuir para o debate sobre a consciência?. Rev Psiq Clín. 40(5):203-207. 

Ring, K.; Cooper, S. (1997). Near-Deatj and Out-of-Body Experiences in the Blind: A study of Apparent Eyeless Vision. Journal of Near-Death Studies, 16(2). Disponível em: <http://kernz.org/nd/nde-papers/Ring/Ring-Journal%20of%20Near-Death%20Studies_1997-16-101-147-1.pdf>. Acesso em fev/2013.